
Antes de qualquer coisa, um aviso: no final deste artigo tem o plano inteiro em PDF para você baixar, imprimir e levar para a escola. É o mesmo plano descrito aqui, só que diagramado, com a lista de materiais e o quadro de avaliação prontos para preencher. Se você chegou aqui com pressa, pode descer direto até lá.
Agora, para quem quer entender o raciocínio por trás de cada dia: este plano Dia das Crianças foi montado para uma semana de cinco encontros na educação infantil, com adaptação para o 1º ao 5º ano no meio do texto.
Ele nasceu de um problema que toda professora conhece. Outubro chega, a coordenação pede “alguma coisa especial”, e o que costuma sobrar é uma tarde de pipoca com filme e um desenho para colorir. Funciona? Funciona. Mas dá para fazer melhor sem gastar mais, e é isso que está aqui.
Por que vale a pena planejar essa semana
O 12 de outubro virou data comercial faz tempo, e a escola acaba entrando nessa lógica sem querer. A criança recebe brinquedo, come doce, volta para casa cansada e ninguém conversou com ela sobre nada.
A proposta aqui é outra. Cada dia da semana trabalha um campo de experiência diferente, com objetivo registrado e código da BNCC anotado. Você comemora e cumpre o planejamento ao mesmo tempo, o que resolve aquela conversa chata com a coordenação sobre “perder aula” em semana de festa.
A origem da data, em duas linhas
O Dia da Criança foi oficializado no Brasil em 1924, por decreto do presidente Arthur Bernardes, depois de uma proposta do deputado Galdino do Valle Filho. Ficou esquecido por décadas.
Só pegou de verdade nos anos 1960, quando a indústria de brinquedos e uma campanha de higiene infantil chamada Semana do Bebê Robusto amarraram a data ao consumo. Vale contar isso para as turmas maiores, rende boa conversa.
Como montar um plano Dia das Crianças que funcione na prática
Se você prefere adaptar em vez de usar pronto, três decisões resolvem quase tudo.
Primeiro, escolha o campo de experiência antes de escolher a brincadeira. Muita gente faz o contrário: acha uma atividade bonita no Pinterest e depois tenta encaixar um código da BNCC nela.
O resultado é um plano que não se sustenta na hora do olhar pedagógico. Se você quer relembrar esse caminho do zero, o passo a passo está em como fazer plano de aula.
Segundo, calcule o tempo de verdade. Criança pequena leva quinze minutos só para lavar a mão e sentar na roda. Um plano de 50 minutos com quatro etapas não existe fora do papel. Aqui cada dia tem três momentos, e o terceiro é sempre curto.
Terceiro, use o que a escola já tem. Todo o material deste plano cabe no armário da sala: papel, tinta, sucata, barbante, giz e caixa de papelão. Nada que precise de verba extra.
Plano Dia das Crianças pronto: cinco dias de atividades
Ficha técnica
Público: crianças pequenas, de 4 anos a 5 anos e 11 meses. Duração: 5 dias, cerca de 60 minutos por dia. Tema geral: “Ser criança é…”.
Objetivo geral: ampliar o repertório de brincadeiras e de expressão das crianças, criando espaço para que falem sobre si mesmas, sobre o que gostam e sobre o que sentem, dentro de uma semana comemorativa.
Campos de experiência trabalhados: O eu, o outro e o nós; Corpo, gestos e movimentos; Traços, sons, cores e formas; Escuta, fala, pensamento e imaginação; Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações.
Se a sua turma for menor que essa faixa, o formato dos encontros muda bastante e vale conferir o plano de aula maternal de 2 a 3 anos BNCC antes de aplicar.
Segunda-feira: Eu sou assim
Objetivos: EI03EO04 (comunicar ideias e sentimentos), EI03EF01 (expressar vivências pela linguagem oral).
Acolhida (15 min): roda com a pergunta “o que você mais gosta de fazer?”. Não aceite só uma palavra, puxe: onde, com quem, por quê. Anote as respostas num papel grande, na frente delas, dizendo em voz alta o que está escrevendo.
Atividade central (30 min): cada criança desenha a si mesma fazendo aquilo que falou. Quem quiser dita uma frase para você escrever embaixo. O conjunto vira o painel “Ser criança é…”, que fica exposto a semana toda no corredor.
Fechamento (10 min): duas ou três crianças apresentam o desenho. Só as que quiserem.
O que observar: a criança consegue falar de si na roda? Espera a vez? Escuta o colega?
Terça-feira: brincadeiras de antigamente
Objetivos: EI03CG02 (controle e adequação do corpo em brincadeiras e jogos), EI03EO03 (participação e cooperação).
Antes: mande um bilhete na sexta anterior pedindo que a família conte para a criança uma brincadeira da infância dela. Isso muda completamente a roda de segunda para terça.
Acolhida (10 min): cada criança conta a brincadeira que trouxe de casa.
Atividade central (35 min): quatro estações no pátio, com rodízio de 8 minutos. Amarelinha desenhada com giz, corrida do saco com sacos de arroz vazios, cabo de guerra com corda de varal e boca de forno. Se a escola tiver espaço limitado, faça duas estações e repita.
Fechamento (10 min): “qual foi a mais difícil?”. Deixe elas discordarem entre si.
Dica: se você quiser transformar esse dia num bloco maior de movimento, dá para puxar ideias do plano de aula de educação física do 1º ao 5º ano, adaptando as regras para menos crianças por rodada.
Quarta-feira: ateliê do brinquedo
Objetivos: EI03TS02 (expressar-se por desenho, pintura, colagem, dobradura e escultura), EI03CG05 (coordenar habilidades manuais).
Acolhida (10 min): mostre um brinquedo de sucata pronto, feito por você. Pode ser um vai e vem de garrafa PET ou um bilboquê de garrafa e tampinha. Deixe elas mexerem.
Atividade central (40 min): mesas com caixas, rolinhos, tampinhas, barbante, cola e fita. A regra é uma só: no fim, o brinquedo tem que funcionar. Circule perguntando “como você vai fazer isso ficar em pé?” em vez de resolver por elas.
Fechamento (10 min): cada criança testa o brinquedo do colega ao lado.
Esse é o dia que mais suja e o que rende mais foto para o mural. Reserve um tempo extra para a limpeza. Outras propostas de ateliê estão reunidas nos planos de aula de artes.
Quinta-feira: história e faz de conta
Objetivos: EI03EF04 (recontar histórias e planejar coletivamente encenações), EI03CG01 (criar com o corpo formas de expressão).
Acolhida (15 min): leitura de um livro sobre direitos ou sobre brincar. “O menino que brincava de ser”, da Georgina Martins, funciona bem. “Bárbaro”, do Renato Moriconi, também, e é sem texto, o que obriga a turma a narrar.
Atividade central (30 min): a turma escolhe uma cena da história e encena. Sem ensaio, sem decoreba. Você narra e elas fazem. Repita duas vezes trocando os papéis.
Fechamento (10 min): “o que essa criança da história tinha direito de fazer?”. Aqui entra a conversa sobre direitos sem virar aula de moral.
Sexta-feira: a festa que elas organizam
Objetivos: EI03ET07 (relacionar números a quantidades), EI03EO01 (demonstrar empatia).
Acolhida (15 min): a turma decide junto três coisas da festa. Qual música toca primeiro, qual brincadeira abre, como os alimentos vão ser divididos. Contem juntos quantas crianças tem e quantos copos são necessários. É matemática de verdade, disfarçada.
Atividade central (35 min): a festa. Circuito de bambolês e cones, dança da cadeira sem eliminação (quem sobra vira ajudante do juiz) e lanche coletivo.
Fechamento (10 min): entrega do painel de segunda para cada criança levar para casa, junto com o brinquedo de quarta.
Um detalhe que faz diferença: dança da cadeira com eliminação deixa metade da turma sentada e chorando em cinco minutos. A versão sem eliminação, em que as crianças vão se apertando nas cadeiras que sobram, mantém todo mundo dentro.
Adaptação para o 1º ao 5º ano
O esqueleto da semana serve, o que muda é a profundidade.
No 1º e 2º ano, a segunda-feira vira escrita: em vez do desenho ditado, a criança escreve a própria frase, do jeito que consegue. A terça continua igual, mas com uma pesquisa em casa sobre uma brincadeira antiga, que dialoga direto com a habilidade EF01HI05, de comparar jogos e brincadeiras de épocas diferentes. Se a sua turma é essa, os planos de aula para o 1º ano do ensino fundamental trazem o formato de registro que a coordenação costuma pedir nessa etapa.
Do 3º ao 5º ano, troque o ateliê de sucata por um projeto de duas aulas: a turma constrói um jogo de tabuleiro com regras próprias e depois joga o jogo do outro grupo.
Rende discussão sobre regra justa, sobre o que é ganhar e sobre o que fazer quando alguém não entendeu a instrução. A quinta-feira pode virar debate sobre publicidade infantil, com análise de propagandas de brinquedo. Nessa idade eles percebem rápido que estão sendo convencidos a comprar, e a conversa fica boa.
Adaptações para crianças com deficiência
Três ajustes cobrem a maioria das situações de sala comum.
Para crianças com deficiência visual, substitua as instruções visuais por descrição falada e material com textura contrastante. Na amarelinha, use corda no chão em vez de giz, para que dê para sentir a divisão com o pé.
Para crianças com deficiência auditiva, combine um sinal visual para começar e parar cada estação, como uma bandeirinha colorida. Vale para a turma toda e diminui o grito.
Para crianças com TEA, antecipe. Mostre na segunda-feira o quadro com o que vai acontecer em cada dia da semana, com foto ou pictograma, e mantenha o quadro visível.
A sexta-feira, com música alta e mudança de rotina, é a que mais costuma desorganizar, então ofereça um canto calmo e a possibilidade de sair e voltar. Se você precisa articular isso com o atendimento especializado da escola, vale entender antes o que significa AEE e como fica a divisão de responsabilidades.
Lista única de materiais para a semana
Compre ou separe uma vez só, na sexta anterior:
- papel kraft ou pardo, 2 metros, para o painel
- folhas A4 e lápis de cor, giz de cera
- tinta guache em três cores e pincéis
- giz de lousa branco para o chão do pátio
- 4 sacos de arroz vazios ou fronhas velhas
- corda de varal, 5 metros
- caixas de papelão, rolinhos de papel higiênico, tampinhas e garrafas PET
- cola branca, fita crepe e barbante
- 2 livros infantis
- bambolês e cones, ou garrafas com areia no lugar dos cones
- caixa de som e uma playlist curta
Como registrar a avaliação
Avaliação na educação infantil é observação, não nota. O erro comum é observar tudo e não registrar nada, e aí na hora do relatório você não lembra.
Faça assim: escolha cinco crianças por dia, não a turma inteira. Ao final do dia, escreva uma frase sobre cada uma, ligada ao objetivo daquele dia. Em cinco dias você cobriu 25 crianças com registro específico, o que é bem melhor que 25 fichas genéricas preenchidas no domingo à noite. O PDF do final traz esse quadro pronto, com espaço para as cinco crianças de cada dia.
O que vale registrar: participação nas rodas, iniciativa nas estações, como resolve conflito na disputa por material, se pede ajuda quando precisa.
Como envolver as famílias sem pedir dinheiro
Duas ações bastam e nenhuma custa nada.
O bilhete de segunda, pedindo que contem uma brincadeira antiga, traz a família para dentro do plano sem exigir presença nem compra.
E na sexta, em vez de pedir salgadinho, peça que cada família mande um bilhete de três linhas para o próprio filho, dizendo do que gosta nele. Você lê os bilhetes na roda de fechamento. Já vi essa parte fazer professora chorar no meio do pátio.
Erros que estragam a semana
Encher os cinco dias de atividade dirigida. Deixe pelo menos um bloco de brincadeira livre por dia, mesmo que curto.
Fazer tudo no mesmo espaço. Alternar sala, pátio e corredor já muda o ânimo da turma.
Prometer o que a escola não vai bancar. Se não tem verba para lembrancinha, não anuncie lembrancinha. O brinquedo de sucata da quarta resolve isso e sai de graça.
Deixar o registro para depois. Depois não existe.
Perguntas frequentes
1- Dá para aplicar esse plano em três dias?
Dá. Junte segunda e quinta num dia só (identidade e história), mantenha a quarta (ateliê) e a sexta (festa). O que não vale cortar é o ateliê, porque é o dia que gera o objeto que a criança leva para casa.
2- Esse plano serve para berçário?
Não como está. Bebês precisam de outra lógica de tempo e de proposta. Adapte a partir de um material específico da faixa, como o plano de aula infantil alinhado à BNCC.
3- Preciso colocar os códigos da BNCC no meu registro?
Depende da rede. Muita secretaria exige o código na ficha semanal, outras aceitam só a descrição do objetivo. Os códigos deste plano são referências da BNCC para crianças pequenas, mas confira o documento curricular do seu município, porque vários estados fizeram versões próprias com numeração adicional.
4- E se eu quiser um modelo em branco para preencher com o meu jeito?
Tem vários formatos, por etapa e por componente, em modelos de plano de aula para baixar. Dá para copiar a estrutura desta semana para dentro do modelo que a sua escola usa.
Outras datas que caem no mesmo esquema
Esse formato de semana temática, com um campo de experiência por dia, funciona para qualquer comemoração do calendário. Se der certo em outubro, você reaproveita o desenho em maio com o plano de aula de Dia das Mães e em fevereiro com um projeto de Carnaval. Para preencher os intervalos entre uma data e outra, a lista de 15 atividades lúdicas quebra bem o galho em dia de chuva.
Baixe o plano Dia das Crianças em PDF
Como prometido lá no começo, o plano completo está em PDF, pronto para imprimir. Dentro dele você encontra a ficha técnica da semana, os cinco dias detalhados com objetivos e códigos da BNCC, a lista de materiais em formato de checklist, as adaptações para o fundamental e para crianças com deficiência, e o quadro de observação com espaço para preencher.
É só baixar, imprimir e levar para a escola.
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